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A Construção Civil e o Besouro

Opinião

Data: 06/01/2016

A Construção Civil e o Besouro

Fonte: wikipedia

 


A construção civil e o besouro




“A SAÍDA DA CRISE ESTÁ NA NOSSA CAPACIDADE DE DESATAR O NÓ POLÍTICO”






   Li quando jovem – e nunca me esqueci disso – um artigo científico que pretendia provar que um determinado tipo de besouro não apresentava condições aerodinâmicas para voar. E, no entanto, a despeito disso, o besouro teimava em voar. Muitas vezes, na prática, a teoria não funciona por conta de outras restrições e variáveis supervenientes ou não consideradas inicialmente. Este é, exatamente, o caso das perspectivas atuais da construção civil no Brasil, em todas as suas modalidades.


   Um país reconhecidamente carente em infraestrutura, com necessidades imediatas de manutenção, modernização e expansão de rodovias, aeroportos, portos, silos, unidades de geração e transporte de energia, sistemas de comunicação e outras facilidades para o crescimento da economia – tudo isso em uma moldura continental –, deveria ser considerado um grande mercado para as empresas de construção pesada e para aquelas especializadas em montagens e em outros empreendimentos especiais. No entanto, esse besouro teima em não voar e a modalidade da construção pesada caiu num imobilismo gritante. 


   Na busca de explicações para essa anomalia, algumas análises mais apressadas costumam relacionar essa paralisia ao fato (inegável) de que as principais construtoras existentes no País foram diretamente atingidas pelos efeitos da Operação Lava-Jato e de outros procedimentos jurídico- investigativos presentemente em curso. Essa relação deve existir, de fato, não apenas por conta da paralisação de grandes empreendimentos e da interrupção dos respectivos contratos, como também devido ao estrangulamento financeiro decorrente de tudo isso. 


   Mas essa explicação é simples demais para ser verdadeira sozinha. Boa parte do tropeção foi potencializado pela crise política e econômica em que estamos mergulhados no período mais recente e que impede ou reduz todos os tipos de ação. 


   A modalidade da construção predial é outro besouro que teima em não voar, por causa dessa mesma crise política e de outros entraves herdados de passado mais remoto, mas cultivados e expandidos com gosto no período mais recente, como, por exemplo, a infernal burocracia que tudo emperra. Como explicar a paralisia deste outro besouro em um país que tem um déficit habitacional da ordem de 7 milhões de moradias, que terá de construir 35 milhões de novas unidades nos próximos 25 anos (a um ritmo anual de quase 1,5 milhão de habitações), cujo montante aplicado em crédito imobiliário ainda se situa em apenas 8% do PIB e cujos compradores alcançam um total da ordem de 100 milhões de pessoas com o necessário poder de compra? Qual a natureza do peteleco que terá que ser aplicado nesse besouro? A resposta e a saída estão na nossa capacidade de desatar o nó político. 


   O fato é que, enquanto a crise não é resolvida e o governo deixa de exercer o comando das ações, a construção civil, em todas as suas modalidades, paralisou as obras ou diminuiu muito o seu ritmo, devolveu ou vendeu equipamentos e desempregou muitas pessoas, conforme demonstram as estatísticas recentes do IBGE e do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged). Esses dados mostram que regredimos aos níveis de emprego vigentes no período 2008/2009, ou seja, no auge da grande crise financeira internacional. Perspectiva sombria pela frente, caso não tratemos, logo, de organizar o barco para atravessar a tormenta.






   Matéria publicada na Revista Notícias da Construção, do SindusCon-SP, por RUBENS MENIN TEIXEIRA DE SOUZA Presidente do Conselho de Administração da MRV Engenharia e presidente da Associação Brasileira de Incorporadoras Imobiliárias (Abrainc)


 

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